sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O Dia C - Livro: Turismo (2006) de Nirpal Singh Dhaliwal

E porque não só de pão vive o Homem, todas as sextas-feiras doravante vão poder ler um artigo no Desportugal dedicado à cultura, num espaço intitulado “O Dia C”. Passarão aqui em revista diversas sugestões no âmbito da literatura, poesia, música, cinema, teatro, espectáculos musicais e, também, sugestões de roteiros e passeios pelo nosso Portugal e estrangeiro. Estou também interessado em saber a vossa opinião e sugestões, pelo que poderão utilizar o espaço existente na secção dos comentários para esse mesmo fim ou, então, poderão optar por me enviar um email com os vossos comentários. Para tal, coloco à disposição o meu email no final do artigo.

Gostaria de iniciar este espaço com uma sugestão de leitura de um livro recentemente publicado em Portugal pelas Edições Asa, chamado Turismo de Nirpal Singh Dhaliwal.

Nirpal Dhaliwal lançou no ano passado, a par com Londonstani de Gautam Malkani, um dos livros mais polémicos do ano no Reino Unido. A sua estreia literária, Turismo, assenta as suas fundações no politicamente incorrecto, no sexo casual, na procura hedonística pelo prazer e por um lugar ao sol junto da elite bem sucedida de Londres. O livro conta a história de Bhupinder “Puppy” Singh Johal, numa narrativa na primeira pessoa. Jornalista free-lancer e um turista na vida (daí o título), Bhupinder conhece uma modelo que lhe proporciona a experiência de viver entre os escolhidos na Londres do século XXI, ao mesmo tempo que tenta dormir com a sua melhor amiga. Bhupinder aspira a uma vida fácil e desafogada, enquanto descreve a vida entre os subúrbios e a capital; a desigualdade social e a vivência das famílias originárias das antigas colónias britânicas, numa Londres sofisticada e destinada apenas a ser conquistada por alguns, na sua maioria brancos e ricos. Por outro lado, Dhaliwal não perdoa também a falta de esforço das comunidades asiáticas, africanas e mulçumanas na sua integração na comunidade britânica.

“Olhai!, a família asiática: unidade de tradição, força moral e astúcia comercial. Olhai!, a minha mãe: matriarca e fulcro, orgulhosa parideira de filhos homens, majestosa com o seu sari novo, a sua sobrancelha única disposta de um lado ao outro da testa como uma pele de animal, um troféu, o bigode penugento como o de um adolescente.” (p.41, Edições Asa, 2007)
“A população do instituto era, no geral, composta por bengaleses e afro-caribenhos, com alguns turcos e brancos pelo meio (…), brancos da classe trabalhadora. (…) Alguns dos rapazes usavam barba e uma espécie de kurta-pajama; os restantes tinham o mesmo corte de cabelo, muito curto atrás e dos lados, com uma poupa negra como azeviche, penteada com gel. Como os negros, muito usavam jeans e roupas de desporto demasiado grandes mas, como os seus corpos eram pequenos, ficavam com ar de palhaços. Escreviam graffiti nas paredes; o seu slogan preferido, A MALTA DO BANGLADESH É QUE MANDA.” (p.85, Edições Asa, 2007)
As opiniões do autor são muitas das vezes salpicadas de um humor e cinismo cáustico, alternando entre um ataque ao outro ou entre a resignação perante a sua própria indiferença pelo outro.

“Bhupinder. O meu nome é Bhupinder. (…) Mas as pessoas tratam-me por Puppy. (…) Ainda pensei em explicar-lhe que Papi é um nome carinhoso muito comum em punjabi – e que os meus amigos o pronunciavam mal e diziam “Puppy” - , mas não tive paciência.” (p.35, Edições Asa, 2007)
Curiosamente, a referência aos lusitanos não ficou de fora.

“(…) arrendámos um T1 já muito usado, num edifício pré-fabricado perto da Câmara Municipal de Hackney. Não tinha aquecimento central e a alcatifa infestada de ácaros tornou-me asmático. Nunca havia água quente suficiente para nós os dois nos lavarmos de manhã e ouvia-se o barulho todo dos apartamentos vizinhos – especialmente o da família portuguesa do andar de baixo, que comunicava aos gritos.” (p. 87, Edições Asa, 2007)
Com traços marcadamente autobiográficos, o livro tem sido precedido de uma cobertura exaustiva pelos media, que acompanham agora o divórcio do autor com a sua mulher, colunista na revista feminina, Marie Claire. Liz Jones, sua ex-mulher, mencionava frequentemente na sua coluna a relação com o seu namorado, depois marido e agora ex-marido, imputando-lhe críticas e traições. Nada que deva preocupar o autor, pois como diria Lord Henry Wotton, personagem do romance O Retrato de Dorian Gray do irlandês Oscar Wilde, com o qual Dhaliwal chega até a ser comparado, “Só há no mundo uma coisa pior do que ser-se falado, que é não ser-se falado.” (p.8, Relógio d'Água, 2003) E publicidade será sempre bem vinda!

Em conclusão, pela boa história e fácil leitura, carregada de vigor e uma atitude descomprometida, Turismo apresenta-se como um óptimo livro de introdução a um autor cuja carreira parece prometedora. Entretanto, resta-me apenas esperar pelo seu próximo livro.

Boas leituras e até sexta!

(contacto: goncaloveiga1982@yahoo.com)


Links de interesse sobre a obra e o autor:
Crítica no blog Contracultura
Edições Asa
Entrevista no Youtube


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3 comentários:

  1. Já li e é de facto um livro de qualidade, mas com um final um pouco aquém das restantes páginas.

    Abraço

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  2. CÉSAR FERNANDES17 agosto, 2007 22:23

    O DESPORTUGAL ESTÁ A CRESCER. PARABÉNS. JÁ AGORA, AGRADA-ME A IDEIA DE VER DESPORTO MISTURADO COM OUTROS TEMAS COMO LIVROS E AFINS.

    BOA SORTE PARA O NOVO MEMBRO(OUTRO GONÇALO)

    CUMP..

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  3. Rodrigo Lopes:
    Sim, tenho que concordar. Um final um pouco apressado e que perde vitalidade. Esperemos que o próximo romance dele seja mais homogéneo.

    Abraço.


    César Fernandes:
    É verdade, qualquer dia temos aqui uma verdadeira redacção editorial! Obrigado.

    Abraço.

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